Os Dentes
Primeiro, a comida é introduzida na boca, onde é reduzida a pedacinhos pelos dentes. É com estes que mordemos e mastigamos os alimentos. Morder é uma atividade bastante agressiva, a expressão da capacidade de cuidar de nós mesmos, de enfrentar os fatos e de 'agarrar as coisas com os dentes'. Assim como um cão arreganha os dentes a fim de deixar claro o quanto pode ser perigoso e agressivo, também falamos de 'mostrar os dentes a alguém' querendo dizer com isso que tomamos uma resolução, que defenderemos nosso ponto de vista. Dentes ruins e doentes são um indício de que a pessoa não consegue demonstrar muito bem sua agressividade ou encontra dificuldade em se impor.
Essa ligação não perde de forma alguma sua validade pelo fato de a maioria das pessoas terem atualmentedentes ruins, o que se pode comprovar até mesmo em criancinhas. Claro que essa afirmação está correta; no entanto, sintomas coletivos apontam precisamente para problemas coletivos. A agressividade tornou-se um dos problemas centrais de todas as culturas socialmente desenvolvidas da atualidade. Exige-se 'adaptabilidade social', o que na prática equivale a dizer: 'Reprima sua agressividade'. As condutas agressivas, reprimidas pelos nossos cidadãos socialmente tão adaptados e pacíficos, tornam a aparecer como 'doenças' à luz do dia e, em última análise, atacam toda a comunidade com a mesma malignidade que teriam na sua configuração original. Consequentemente, nossos hospitais e clínicas são os campos de batalha da sociedade moderna. É neles que as agressões reprimidas lutam contra seus repressores e onde se travam as batalhas mais amargas. As pessoas sofrem devido à própria maldade, por não terem tido coragem de descobri-la e elaborá-la conscientemente, durante toda a sua vida.
Não devemos nos surpreender se a maioria dos sintomas de doenças sempre torna a apontar para os âmbitos da agressividade e da sexualidade. Esses são os setores problemáticos da vida, aqueles que mais atormentam os homens da época atual. Talvez alguém argumente que a escalada da criminalidade, o aumento no número de atosde violência e a onda cada vez maior de sexualidade sejam depoimentos contrários a nosso argumento. No entanto, podemos contra-argumentar que tanto a falta de manifestação das agressões, como a violência manifesta, são sintomas de repressão da agressividade. Ambas são fases distintas de um mesmo processo. Apenas quando a agressividade não precisar mais ser reprimida, conquistando, em princípio, um espaço próprio, e na medida em que pudermos reunir experiências usando essa energia, será possível integrar de forma consciente a parte agressiva da natureza humana. A agressividade integrada torna-se disponível à personalidadecomo vitalidade geral e como força interior sem que haja necessidade de extravasar-se como fraqueza decaráter, nem em acessos de brutalidade. Para tanto, a pessoa deve contar com oportunidades de amadurecimento através da experiência. As agressões reprimidas levam diretamente à formação a sombra, com a qual temos depois de nos haver na forma pervertida de uma doença. Tudo o que dissemos também vale, por analogia, para a sexualidade e para todas as outras funções psíquicas.
Voltemos então aos dentes que, tanto no corpo animal como no corpo humano, representam o dinamismo agressivo e a habilidade para enfrentar a vida (abrir caminho "abocanhando" o que nos interessa). Os povos primitivos são citados varias vezes como exemplo de uma dentição sadia que é atribuída a sua dieta natural. Mas também encontramos entre eles uma maneira muito diferente de lidar com as agressões. Ao lado dasintomatologia coletiva, o estado dos dentes nos leva sobretudo a uma interpretação pessoal. Alem da agressividade a que já nos referimos, os dentes também revelam o estado de nossa vitalidade ou energia vital ( na verdade, agressividade e vitalidade são apenas dois aspectos distintos de uma mesma força, embora os dois conceitos despertem em nós associações bastante diversas). Lembremos a expressão: "Não se olham os dentes de um cavalo dado". Essa expressão significa o hábito de examinar a boca do cavalo a fim de avaliar sua vitalidade pelo estado de seus dentes. Também a interpretação psicanalítica dos sonhos interpreta a imagem onírica de uma queda dos dentes como indicação de perda de energia e potência vital.
Há pessoa que "rangem os dentes" regularmente a noite, as vezes de forma tão intensa que é preciso fazê-las usar mordedores para que não gastem totalmente os dentes com a fricção. O simbolismo é evidente. Ranger os dentes signifca, sob óptica, exatamente a conduta para expressar uma agressividade impotente. Quem não consegue satisfazer seu desejo de morde algo durante o dia, range os dentes à noite por tempo suficiente para gastar e aparar recurso potencialmente tão perigoso em sua pessoa...
A pessoa que tem dentes ruins carece tanto de vitalidade como da capacidade de enfrentar e conquistar a vida. Tem de lidar com problemas "difíceis de roer" ou mastigar. É por isso que a propaganda de creme dental, atinge a meta desejada com expressões como : - para que possa morder outra vez, com força total...
Assim a chamada "terceira dentição", possibilita um falsa aparência externa de vitalidade e uma capacidade de resistência já inexistente. No entanto , resta - como acontece no caso de todas as próteses - esse ato de ilusão que talvez corresponda ao truque de anunciar a existência de um medroso e tímido cão de estimação com uma tabuleta afixada à grade do jardim onde se lê "cuidado cuidado, cão bravo".
A gengiva é a base dos dentes, é onde eles estão fixos.Analogicamente,a gengiva representa o alicerce da vitalidade e da agressividade, da confiança primordial e da auto-segurança. Se faltar essa porção de auto confiança às pessoas, elas não conseguirão lidar com problemas e uma forma ativa e vital, nunca terão coragem de quebrar nozes duras ou roer essa aptidão, tal como a gengiva serve de base segura para os dentes. A gengiva não pode fazer isso, no entanto, se for sensível demais e sangrar à mínima fricção. O sangue é o símbolo da vida e, assim, uma gengiva que sangra com facilidade nos mostra, de forma bastante óbvia, que nossa autoconfiançacorre risco de escoar e perder-se, mesmo diante da mínima exigência à nossa vitalidade.


fonte: "a doença como camminho"

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